Identificação – corpo que se constitui, corpo que dança

ACIDENTE NA SALA
FERREIRA GULLAR

E a cabeça do fêmur atrita com o osso da bacia

Sofro um tranco

E me ouço perguntar

Aconteceu comigo ou com o meu osso?

E outra pergunta

Eu sou o meu osso?

Ou sou somente a mente que a ele não se junta

E outra, se osso não pergunta, quem pergunta?

Alguém que não é osso, nem carne, que em mim habita

Alguém que nunca ouço

A não ser quando no meu corpo um osso com outro osso atrita?

Em sua poesia, Acidente na Sala, Ferreira Gullar, separa o corpo fisiológico do processo de pensamento, sendo assim, o corpo é poetizado de forma fragmentada e nos questiona: “E se osso não pergunta, quem pergunta?”.

Freud, nascido em 6 de maio de 1856 (falecido em 23 de setembro de 1939), graduado em medicina em 1881, construiu sua teoria se contrapondo ao conceito de corpo da medicina de sua época. O corpo era, ou ainda é pensado pela medicina, como um organismo único, compreendido e tratado em seus aspectos orgânicos, funcionais e biológicos. Freud traz a concepção do corpo como uma inscrição do psíquico e do somático. Subverte o conceito de corpo da medicina para um conceito onde o corpo constituído através das sensações. Um corpo erotizado, erogenizado, pulsional, que não é simplesmente anatômico. Um corpo que precisa sair do caos pulsional que vivenciamos enquanto bebês, saída essa que ocorre através do Outro que nos cuida, adquirindo o corpo da simbolização, da representação, do transbordamento, do gozo. Segundo Nasio, Freud organiza simbolicamente a anatomia desse corpo virtual, do qual se impregna e no qual impregna seu corpo vivo.

“Alguém que não é osso, nem carne, que em mim habita”. Gullar

Para muitos, ainda na atualidade, a psicanálise é pensada como a teoria que oculta o corpo. Mas na teoria freudiana e lacaniana, percebe-se diferente.

Em 1923, Freud conceitua que “O próprio corpo, e antes de tudo sua superfície, é um lugar do qual podem resultar simultaneamente percepções externas e internas.”.

Carla Andréa Lima, no artigo Da questão do Corpo ao Corpo em questão, cita que “Para Lacan (1998), a corporeidade é fundamentalmente uma experiência vinculada a imagem do corpo o que pressupõe que a ideia de si como um corpo será feita a partir da identificação do eu com sua imagem. A transformação produzida no sujeito quando assume uma imagem.”.

Também em 1923, em O ego e o Id, Freud cita que “O ego é antes de tudo um ego corporal”, acrescentando ainda em nota em 1927, que o ego deriva, em última instância, das sensações corporais, principalmente daquelas que têm sua fonte na superfície do corpo. Assim, pode ser considerado uma projeção mental da superfície do corpo, e além disso representa a superfície do aparelho mental.

Neste sentido, Freud estabelece que o corpo enquanto organismo e organização psíquica inclui a projeção deste corpo, estando ambos atrelados. O corpo constitui o eu e eu não sou sem um corpo.

Poetiza Gullar “Aconteceu comigo ou com o meu osso? Eu sou o meu osso? Ou sou somente a mente que a ele não se junta.”. Esse desconhecimento, essa alienação como constitutivos do eu, Lacan trabalha em seus ensinamentos retratando que o eu se constrói a partir do Outro, em especial a partir da imagem que lhe é devolvida pelo semelhante.

Nasio cita Lacan relatando que “O estádio do espelho” como formador da função do Eu, como possibilidade de unificação da imagem. Essa imagem de unificação corporal é sustentada pelo que está fora dela. Assim, para sair da relação narcísica, Lacan ressalta a necessidade do simbólico, que vem através do Outro, que será sua referencia de eu ideal. O corpo se constitui através do Outro. De como o Outro o significa pelo olhar, pela linguagem.

Neste sentido, é preciso pensar o corpo nas 3 tópicas da trilogia sugerida por Lacan : imaginaria, simbólica e real. Da perspectiva do imaginário, o corpo como imagem ( a imagem do próprio corpo assumida pelo sujeito a partir do outro ). No simbólico, o corpo marcado pelo significante ( a relação entre fala, linguagem e corpo, corpo marcado pelo simbólico, suporte do significante ). No Real, o corpo como sinônimo de gozo ( pura energia psíquica onde o corpo seria apenas uma caixa de ressonância).

Nasio também ressalta que “o corpo está ali, no conhecimento, na leitura de um texto, na compreensão do que está escrito e no simples fato de se exclamar: “compreendi!”. O conhecimento está ligado a imagem do corpo. O conhecimento consiste em produzir um sentido através da imagem do corpo.”.

Mathilde Monier citada por Nelly Lancine e Teresinha Nóbrega em seus artigo “Corpo, Dança e Criação”, cita que “A dança é o espaço de liberação do corpo” (…) , “é o conhecimento do outro através do corpo e do movimento.”. O corpo na dança expressa uma outra linguagem, que desafia o espaço, o imaginário, o simbólico. Transgride. Assim a dança propicia sair dos padrões corporais fixados. Instiga uma nova imagem, linguagem e simbolismo. A dança inclui o conceito freudiano de eu corporal como projeção de uma projeção mental e o conceito lacaniano do eu ser unificado através da identificação com sua imagem. Essa autora utiliza a citação de um filósofo francês, Gilles Deleuze: “na dança, o corpo é a fronteira entre o sujeito e o objeto, sendo a sensação o elo principal.”.

O corpo das sensações sugerido por Freud, a relação da constituição do sujeito através do Outro, instigada por Lacan. Assim pôde-se entender que a dança existe por meio do corpo, mas um corpo que não é só organismo. Um corpo expressa, que transmite, que fala, que representa, que significa. Tal como Nasio cita Freud, um corpo simbólico, virtual, que se sustenta na imagem. Ou como Lacan nos coloca: “A transformação produzida no sujeito quando assume uma imagem.”. Ou, como poetiza Gullar: “Alguém que não é osso, nem carne, que em mim habita”.

Na dança, a ideia de si como um corpo também é propiciada a partir da identificação do eu com sua imagem, imagem essa que também é sustentada pelo que há fora dela. A identificação ocorre na dança através do imaginário do movimento, da sensação sentida, refletida ou imaginada de ser sentida por um outro. O eu corporal através de uma imagem.

No Dicionário Enciclopédico de Psicanálise – o legado de Freud e Lacan de Pierre Kaufmann; traduz que as “Identificações são uma lenta hesitação entre o “eu” e o “outro”.”.

Eu e Outro, corpos diferentes que se sustentam através das identificações, identificações nas quais há uma incorporação do que sou através do olhar do outro, do que nego do outro em mim e do que desejo em mim que é do outro. Corpos que desafiam o espaço, o imaginário, o simbólico.

Para Philippe Decouffle´, outro filósofo citado por Nancine e Nóbrega, relata que a dança sempre mostra algo que se esconde. A fluidez dos corpos e da relação entre os corpos instiga uma nova construção de significados, muitas vezes não possíveis de expressar na linguagem.

Nasio ressalta que “O corpo na~o e´ causa de nada, nem da pulsa~o nem do prazer de o´rga~o, contudo, sem a corporeidade nada seria possi´vel.”.

Para Maria Tereza Furtado Travi, “toda dança nasce da necessidade de expressão, de comunicação, de algo consciente ou inconsciente.”. E pensar o corpo segundo o que nos traz Freud, “É como dançar em um palco sem iluminação, ou com pequenos focos no escuro. Daí tantos tombos e saltos que machucam, causando os hematomas na alma.”.

Esse corpo, que não é mais pensado somente em sua biologia, é marcado pela sua história e historicidade, com marcas e cicatrizes, biológicas e sensoriais que o constitui e o faz viver, dançar. É construído e constantemente marcado pela imagem que o semelhante reflete, pelo simbolismo que o Outro instiga…. Pelas identificações ocultas e constantes… Um corpo que dança.

Referências

Cukiert, Michele e Priszkulnik, Leia; “Considerações sobre o eu e o corpo em Lacan, SP 2002

FREUD,S., ”Obras completas de S. Freud – ´O Ego e o Id´”, RJ, Imago, 1923

Fontes, Ivanise “A ternura tátil: o corpo na origem do psiquismo” SP 2006.

Kaufmann, Pierre Dicionário Enciclopédico de Psicanálise – o legado de Freud e Lacan: tradução Verá Ribeiro, Maria Luiza X. De A. Borges; RJ: Jorge Zahar, ed 1996

Lacan, J. (1). O Seminário Livro 9: Identificação. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Lancine , Nelly e Nóbrega, Terezinha Petrucia, “Corpo, dança e criação” RS , 2010

Lima, Carla Andre´a “Da questão do corpo ao corpo em questão” MG 2014

Nasio, J.-D. (1993). Cinco lições sobre a teoria de Jacques Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zaha